O SEU BEBÉ SÓ ADORMECE AO COLO? E ENTÃO?

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Criar hábitos e rotinas de sono desde os primeiros tempos de vida é uma missão que todos os pais devem procurar abraçar para o bem dos filhos. E para ajudar nesta tarefa, mais ou menos árdua, existem umas quantas regras e dicas gerais. Deixar o bebé no berço e sair do quarto antes de ele ter ferrado no sono é um dos conselhos dados por muitos pediatras, mas há quem diga que só funciona com “bebés imaginários”. Quando a luta com o “João Pestana” é intensa, muitas vezes não há outra opção senão adormecê-los ao colo. E qual é o problema?

 

Não há nenhum problema em adormecer um bebé ao colo”, garante o pediatra Filipe Silva, sublinhando que “nesta faixa etária, a consolidação do sono depende mais das características do próprio bebé do que da técnica do cuidador e dos fatores do ambiente”.

 

Também a terapeuta de bebés Constança Ferreira afirma que “com um bebé real, que chora, deitá-lo e esperar que adormeça sozinho não funciona!”. “Um recém-nascido espera sempre um contacto. No primeiro trimestre de vida os bebés vêm preparados para uma relação estreita com o cuidador. Portanto, há bebés que precisam de dormir ao colo e as mães que fazem a escolha de os ter ao colo fazem uma escolha muito acertada! É sempre preferível dormir”, defende a terapeuta, que recusa a ideia de que “o colo vicia”.

 

Mas até que idade é “aceitável” adormecer os bebés ao colo? “Varia muito”, atesta Constança Ferreira, acrescentando que o objetivo é procurar que “todos descansem”. “Em todas as idades, sempre que o comportamento do bebé ou dos pais estejam a ter impacto na família temos de reencontrar estratégias.”

 

Já Filipe Silva, que também faz questão de frisar a individualidade de cada criança, aponta que a partir dos cinco, seis meses “as crianças começam a criar hábitos na forma de adormecer e é importante que comecem a tornar-se progressivamente autónomos”. “Porque se a criança adormeceu ao colo, à mama, ou a enrolar o cabelo da mãe, é possível que quando acordar durante a noite tenha a expectativa de ter aqueles estímulos e, não os tendo, pode ter mais dificuldade a adormecer”, explica o pediatra.

 

A partir dos cinco, seis meses as crianças começam a criar hábitos na forma de adormecer e é importante que comecem a tornar-se progressivamente autónomos”, defende o pediatra Filipe Silva.

 

E é por causa disto mesmo que há pediatras que são contra adormecer as crianças ao colo. “O pai ou a mãe devem deitar a criança na cama e ficar ao pé dela numa cadeira ao lado da cama, lendo uma história ou cantando uma canção calminha. E os pais têm de se habituar a sair do quarto com a criança semi-adormecida. Ela tem que ter conhecimento de que a mãe ou o pai vai sair do quarto”, afirma a pediatra Maria Helena Estêvão, membro da direção da Associação Portuguesa do Sono, explicando que isto ajuda a dar uma melhor noite de sono à criança porque “quando ela acordar durante a noite vai saber que a mãe ou o pai não está ali, mas vai voltar a adormecer porque sabe que é normal”.

 

O problema é que em muitos casos isto não funciona e os bebés começam a chorar sem parar. Nesta altura, o que fazer?

“Há várias técnicas”, garante Maria Helena Estêvão, apontando para a da “desabituação gradual”. “No caso daquelas crianças que choram muito, começamos por deixá-las chorar 20 segundos a 1 minuto e depois vamos lá. E esse tempo de resposta vai aumentando. E durante a noite deve-se manter a criança na cama”, explica, sublinhando porém que “isto são regras gerais”.

 

Já Filipe Silva defende que “não se deve forçar a criança a adormecer sozinha, deixando-a chorar até que se cale por exaustão. Isso passa uma mensagem de abandono para o bebé”.

 

Também Constança Ferreira abomina a teoria de que se deve deixar a criança a chorar até se calar. “Deixar chorar é péssimo”, afirma a terapeuta, acrescentando que uma criança stressada não consegue autorregular-se.

 

Métodos agressivos, pousa-levanta do berço intermináveis, bebés a chorar e pais incentivados a resistir, tudo isto cria padrões de ansiedade na minha perspetiva que não favorecem o sono contínuo”, argumenta a terapeuta, autora do livro “Os bebés também querem dormir”.

E quantas horas devem afinal dormir os bebés? “É muito variável”, garante a pediatra, dizendo que os tempos recomendados são valores médios que correspondem ao tempo total de sono durante o dia e a noite e que cada criança é uma criança diferente.

 

O pediatra Filipe Silva traz à conversa o exemplo de um estudo suíço que diz que os bebés com um mês de vida podem dormir entre 9 e 19 horas.

 

Mudança de quarto aos seis meses

Quanto ao momento ideal para pôr o bebé a dormir no seu próprio quarto, Filipe Silva aponta mais uma vez para os seis meses, que é a altura em que a estrutura do sono dos bebés se assemelha à do adulto em termos de fases de sono (da mais superficial à mais profunda). Quanto à duração dos ciclos de sono (entre os quais há micro-despertares que podem resultar em verdadeiros despertares), começam por ser de 50 minutos desde a nascença e vão aumentando até atingirem os 90 minutos, que é a duração dos ciclos de sono nos adultos. As crianças atingem essa duração aos 12 anos.

 

“Mas este processo de passagem tem de ser progressivo. É conveniente que a mãe ou o pai estejam por perto. Se a criança corresponder e adormecer facilmente, passado meia hora, e não tiver demasiados despertares durante a noite, pode permanecer. Já se tiver despertares muito frequentes, mais vale ficar no quarto dos pais mais uns tempos”, aconselha o pediatra.

 

Até aos seis meses o ideal mesmo é o bebé ficar no quarto dos pais, sendo que se deve evitar que durmam na mesma cama para “evitar acidentes”.

 

Dedique tempo ao seu filho antes de dormir

Um ponto em que os três especialistas estão de acordo é no que diz respeito à importância dos pais dedicarem tempo aos filhos quando chegam a casa, antes do ritual do adormecer.

 

“Se o único tempo de qualidade é na altura de adormecer é natural que a criança tente prolongar o mais possível aquele tempo e que faça de tudo para voltar à cama dos pais, por exemplo”, explica Filipe Silva.

 

“Deve haver momentos de contacto familiar de qualidade, com o encadeamento certo. Quando vamos para a cama já levamos as crianças cheias de convívios”, defende a terapeuta de bebés, Constança Ferreira. Quando esses momentos não existem, porque muitas vezes os pais chegam tarde a casa, então aí é “preciso compreender que a criança vai procurar mais a mãe durante a noite”, acordando mais vezes.

 

Dormir bem ajuda a crescer e a viver melhor

E esta questão do sono não seria tão importante se dormir bem não fosse tão essencial. É durante o sono que o sistema nervoso central cresce e se desenvolve. Além disso, é nesse período que o organismo recupera energias, assegura várias funções hormonais — como a produção da hormona do crescimento, responsável pelo crescimento mas também pela renovação da pele, dos ossos e dos músculos — e fortalece o sistema imunitário. É também quando dormimos que a informação que recebemos durante o dia é filtrada e processada pelo cérebro, consolidando-se assim as memórias mais importantes.

 

Uma boa noite de sono é ainda essencial para melhorar o humor, aumentar a capacidade de concentração, melhorar as aprendizagens e controlar as emoções.

 

Por tudo isto é fácil perceber que dormir mal não faz só olheiras. De início os efeitos podem passar despercebidos, mas com o passar do tempo as consequências vão sendo mais notórias. Podem ir da simples sensação de sonolência no dia seguinte, a dificuldades de concentração na escola ou no trabalho (no caso dos adultos), perturbações da memória, dificuldades de aprendizagem, alterações de humor, comportamentos hiperativos, até a uma sensação extrema de fadiga, que diminui a qualidade de vida da pessoa.

 

A privação de sono está também associada, muitas vezes, à obesidade, uma vez que leva a uma redução da leptina (responsável pela diminuição de apetite) e ao aumento da orexina (que conduz a um aumento do apetite), como escreve o psiquiatra Pedro Afonso, no livro “Quando a mente adoece”.

 

Algumas dicas genéricas para que o seu filho durma melhor:

  • Criar horários de sono regulares. Mesmo aos fins de semana e em período de férias a hora de deitar e de levantar não deve variar muito face ao horário normal. Isto é mais fácil em crianças a partir de 1 ano de idade;
  • o quarto deve ter um ambiente adequado – baixa luminosidade ou escuridão, temperatura amena e pouco ou nenhum ruído;
    os aparelhos eletrónicos — como televisões, telemóveis, tablets, computadores e outras consolas — devem ser evitados antes da hora de ir dormir e devem ficar fora do quarto;
  • a criança não deve ir com fome para a cama;
  • quando as crianças são muito pequenas e precisam da ajuda dos pais para adormecer, os pais têm de ter jantado, estar confortáveis e a desfrutar daquele momento de forma tranquila para não passarem stress para a criança;
  • evitar atividades muito excitantes nas duas horas que antecedem a hora de ir dormir e privilegiar atividades relaxantes. Se a criança continuar agitada na cama, sentar com ela no chão, no quarto com pouca luz, é o ideal para que se acalme;
  • nas horas que antecedem o momento de ir dormir, deve-se evitar ingerir alimentos ou bebidas estimulantes, tais como café, Coca-Cola, chá ou chocolate.

 

in www.Observador.pt

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