AS PLANTAS MEDICINAIS SÃO SEGURAS NA GRAVIDEZ?

Cada vez mais mulheres grávidas procuram alternativas naturais para o alívio de desconfortos e queixas menores associadas à gravidez. De facto, as plantas medicinais são usadas para este propósito desde há séculos (o primeiro registo escrito remonta ao Antigo Egipto).

 

Pouco se sabe do ponto de vista científico, sobre os riscos do uso de plantas na gravidez, porque a maioria delas não foi avaliada formalmente neste sentido, já que óbvias questões éticas limitam a investigação sobre qualquer substância na gravidez em humanos. No entanto, o mesmo discurso aplica-se a maioria dos fármacos convencionais, e não tem faltado ao longo da história contemporânea, tragédias causadas por fármacos que na altura eram considerados seguros na gravidez.

Quase tudo o que se sabe sobre a segurança de algumas plantas medicinais na gravidez, baseia-se num significativo corpo de evidências empíricas e observacionais, construído ao longo da História, e também num limitado número de estudos farmacológicos in vivo .

Naturalmente, a falta de evidências de toxicidade ou perigosidade não é sinónimo de segurança, sobretudo à luz do facto que muitas mulheres procuram informações pela Internet e em fontes menos credíveis, o que as expõe ainda ao risco teórico de “perder tempo” com tratamentos caseiros em situações potencialmente perigosas que requerem atenção médica urgente.

Por causa destas limitações e sobretudo por causa do profundo desconhecimento desta disciplina por parte da classe médica, existe uma forte tendência em considerar “perigosas” todas as plantas medicinais. Sempre na Internet, abundam os sites médicos mais ou menos oficiais, que desencorajam fortemente as grávidas a tomar até um simples chá de camomila! O caso da camomila (Matricaria recutita) é o típico exemplo de contra-indicação baseada em mitos e má interpretação de investigações científicas: em 1979 um estudo identificou o efeito teratogénico do alfa-bisabolol (composto presente nesta planta) em altas doses. Mas a dose necessária para que se verificasse a teratogenicidade era imensamente superior àquela a que se pode aproximar um chá de camomila. Mesmo assim, a camomila passou a ser erroneamente contra-indicada na gravidez, apesar da evidência empírica contrária e da ausência de teratogenicidade em doses normais, comprovada pelo estudo em questão.

Desta forma, as grávidas vêem-se condenadas a sofrer e aguentar uma panóplia de situações desagradáveis ou a recorrer aos fármacos convencionais que são considerados seguros, com base nos mesmos dados empíricos e observacionais que as plantas medicinais!

O mesmo fenómeno acontece durante a amamentação; devido a ausência ou limitação de estudos, existe uma forte tendência a considerar qualquer substância, incluindo a medicação convencional, como incompatível com o aleitamento materno: quem não ouviu a história de alguma conhecida que foi “obrigada” a desmamar o bebé para poder tomar algum medicamento?

Felizmente, hoje começa a circular mais informação entre os profissionais de saúde, e as próprias mães já conhecem fontes credíveis como o www.e-lactancia.org, onde podem verificar a segurança de medicamentos e até de algumas plantas medicinais na amamentação.

De qualquer forma, mencionei esta questão aqui para frisar que a segurança na gravidez e a segurança na amamentação são problemas muito diferentes entre si, e deviam ser analisados separadamente e não colocados no mesmo saco como acontece nas bulas dos medicamentos e nas embalagens de plantas medicinais e suplementos alimentares. Uma consideração geral a fazer é a seguinte: uma coisa é atravessar a placenta e chegar diretamente ao feto, e outra coisa completamente diferente é passar em quantidades mínimas para o leite materno.

Pessoalmente acho que, na gravidez, a abordagem mais sensata é uma consideração ponderada dos riscos e benefícios de cada planta em questão, e a severidade dos sintomas e da condição (onde naturalmente é fundamental a avaliação médica, que também idealmente indicará o nível de urgência ou necessidade de medicação convencional.

O momento da administração é também importante, sendo mais prudente evitar ao máximo o uso de plantas durante o primeiro trimestre.

No entanto, há queixas específicas deste período, nomeadamente as náuseas, que podem ser tratadas em segurança com plantas como o gengibre. (Zingiber officinale) até 1g por dia, em forma de condimento, chá ou sumo. O gengibre é também um bom exemplo do quão pouco linear é o raciocínio que considera perigosas todas as plantas medicinais. De facto, o gengibre pode ser considerado um emenagogo, ou seja uma planta medicinal que estimula a menstruação. Como e óbvio, os emenagogos em geral são contra-indicados na gravidez. No entanto, não só o gengibre é usado tradicionalmente para o alívio das náuseas na gravidez, como também há evidência científica suficiente que confirma a sua segurança.

Ainda, na gravidez, o abaixamento das defesas imunitárias deixa as mulheres mais expostas e fragilizadas perante infeções comuns (gripes, constipações, candidíases, etc) que podem ser eficazmente tratadas com plantas como a Echinacea (Echinacea spp), entre outras, que a evidência científica confirma ser segura e eficaz.

Outras plantas que são cientificamente ou historicamente consideradas seguras na gravidez incluem os tónicos nutritivos como a urtiga, a aveia, as folhas de framboeseiro, a erva cidreira, e a hortelã comum.

Também o uso culinário de plantas aromáticas e especiarias é geralmente considerado seguro, enquanto o uso de algumas destas plantas em forma de chá e/ou em grandes quantidades, não é de todo recomendável. Refiro-me especialmente à salva, tomilho e salsa.

Por outro lado, existem várias categorias de plantas que são sem dúvida contra-indicadas na gravidez. Nas listas oficiais estão incluídas plantas que na verdade são seguras se usadas externamente como Aloe vera, Consolda e Calendula, e esta falta de precisão gera imensas confusões. Também há plantas que são contra-indicadas na gravidez com base em considerações teóricas, mas que há séculos são rotineiramente usadas pelas grávidas em tradições médicas não ocidentais. Refiro-me por exemplo ao Ashwagandha (Withania somnifera) da tradição ayurvédica, e ao Dong Quai (Angelica sinensis) da Medicina Tradicional Chinesa.

Pelo meio, existem muitas outras plantas que cabem numa categoria intermedia, onde um uso breve e pontual para algumas condições concretas poderia ser aceitável. O alcaçuz (Glycirrhiza glabra) pode ser um bom exemplo. Usar esta planta por um breve período (máximo uma semana) pode aliviar uma dor de garganta de forma completamente segura. No entanto, o alcaçuz é completamente contra-indicado em caso de diabetes e hipertensão, e inclusivamente o consumo habitual de alcaçuz em forma de rebuçados e guloseimas, está associado a maiores taxas de prematuridade. Por isto é tão importante que o uso das plantas medicinais na gravidez seja feita com o acompanhamento de um profissional qualificado, que não veja todas as plantas como um perigo, nem prescreva levianamente plantas sem conhecer a fundo todas as implicações relativas à gravidez.

Resumindo: as plantas podem trazer alívio substancial para uma serie de queixas comuns na gravidez, mas é preciso ter em conta vários fatores e ser cautelosos no seu uso.

Uma boa nutrição, exercício adequado, e um estilo de vida saudável também são fundamentais para uma boa vivência da gravidez, período tão importante para a construção da saúde futura do bebé.

Antonella Vignati,
Naturopata do Centro do Bebé

Texto publicado originalmente em SAPO LIFESTYLE